genial, sensorial e cultural
Marina da Glória, RJ – Escuro. Um segundo de silêncio e começa um som pesado, guitarras e bateria - uma depois a outra. Ascendem-se as luzes, adentra a passarela uma modelo loira com um casquete eqüestre preto traçado por um tecido pregueado xadrez, que desenha na cabeça um moicano. O vestido lápis é tomara-que-caia também no xadrez preto com fundo rosa. As pernas são opacas e os brincos dourados e enormes. A roupa é elegante, tem uma certa austeridade, mas não perdeu o deboche. Prende a atenção, me faz lembrar Londres, me faz pensar em rock e desejar a saia lápis rosa de pregas horizontais..
O desfile era a estréia da jovem estilista capixaba Giulia Borges, que abriu o primeiro dia do Fashion Rio na Marina da Glória. Como ele, tantos outros me emocionaram, me trouxeram lembranças, aguçaram idéias e criaram desejos.
Como se sabe, um desfile pode acontecer num museu, como fez a Tessuti, num galpão no cais do porto, como fez a Redley, no Copacabana Palace, como fez Victor Dzenk, ou numa das tendas armadas na Marina da Glória – bons ou ruins, grandiosos ou não, o resultado comum é sempre um rastro de sensações.
Me emocionei com o deleite visual dos bordados da Apoena; com a voz de Elis e com rendas pretas de Graça Ottoni; com as cores e a chuva de papel de Mara Mac; com as divas e seus cabelos a la Veronica Lake da Sta. Ephigênia; e com o a sofisticação bem resolvida da Têca.
E, mesmo sem lembrar de maiores detalhes de cada um deles, como disse, o que fica guardado são imagens e sensações.
Assim como eu, mais cedo ou mais tarde você também verá as fotos ou o resultado final desses desfiles. E, seja na internet, na tv ou ao vivo, o contato com a ‘nova’ moda será uma refrescante experiência sensorial - que em breve estará disponível nas melhores magazines da cidade, é claro.
(moda x arte x cultura)
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- Para você, moda é arte? – pergunta do UseFashion Journal ao ‘artista da moda’ Maurício Ianês.
- Não. Isso é uma concepção errada do que é moda e do que é arte. – resposta do stylist.
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Ok. Mas, apesar da teórica distancia imposta por seus conceitos, moda e arte relacionam-se intimamente num território que tanto as alimenta quanto as devora: é a chamada ‘indústria cultural’.
Seja entretendo, educando, moldando hábitos ou aumentando o consumo, tanto a promiscua moda quanto a aristocrática arte fazem parte do rol de peças fundamentais de uma cultura.
* Até o final do século XVIII, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar os aspectos espirituais de uma comunidade; já a palavra francesa Civilization referia-se às realizações materiais de um povo; E a partir da síntese desses dois conceitos, Edward Taylor cunhou o vocábulo inglês Culture.
Como complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costume, ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade, a cultura pode ser simploriamente determinada como uma lente através da qual o homem vê e experimenta o mundo.
“Indústria” cultural seria, portanto, o conjunto de empresas e instituições cuja principal atividade econômica é a produção de cultura com fins lucrativos e mercantis.
No sistema de produção cultural encaixam-se a tv, o rádio, jornais, revistas e entretenimento de modo geral; que sejam elaborados de forma a aumentar o consumo, moldar hábitos, educar ou informar.
**A moda é um produto impregnado de valores que sintetizam emoções; capaz de modelar hábitos, gerar consumo e, conseqüentemente, lucro.
Em todo o mundo, as semanas de moda acontecem para informar ‘o que será usado’ na temporada seguinte aos lojistas e revendedores da ‘roupa-pronta’ , e para provocar o desejo do consumidor final.
Desse modo, através de experiências e sensações (como as por mim descritas e experimentadas) as novas ‘tendências’ têm tempo para se massificar e instigar o mercado, minimizando assim os riscos do alto investimento feito pelas marcas e estilistas na matéria-prima e na produção.
- É genial!
Usável, inteligente, comunicadora, estética e sensorial - a moda é ou não é um dos melhores produtos da nossa Indústria cultural?
Maria Sanz Martins