Strike a Pose
ou, Foto de Revista
Os convidados para assistirem aos desfiles numa semana de moda são basicamente a imprensa especializada, artistas que atraiam mÃdia e grandes compradores. Mas, quem não está ali a trabalho, quer mais ver o fervo da moda e, mais ainda, ferver!
Ser fotografado e ter a imagem registrada pode ser um sofisticadamente secreto objetivo.
Sim, durante uma temporada de moda, as máquinas fotográficas também funcionam como janelas para o mundo ‘Sensacional’ – e, assim sendo, funcionam também como imãs.

No banho Ana esfregava a mão molhada no vidro embaçado do Box. Gostava de se ver refletida em perspectiva. Não era exatamente bonita, mas sabia tirar proveito de seus atributos e, mais, aplicava com maestria o truque de exagerar os defeitos assumindo-os com ousadia.
Os exóticos óculos de grau eram enormes e protegiam seus olhos castanhos como uma vitrine. Dos cabelos crespos fazia uma ornamentação. Estavam sempre repuxados para trás e presos num rabo-de-cavalo firme que deixava as pontas eriçadas. Sabia se pintar, acreditava no poder das cores e da simpatia.
Ana fazia o atendimento numa agência publicitária, mas sua paixão era a moda. Toda vez que começava uma temporada seu esforço, durante o expediente, era para conseguir convites de alguns desfiles. Em busca deles, se rebolava telefonando para um e outro apostando no poder de persuasão de seu exótico charme – que, seja dito de passagem, era mesmo infalÃvel.
Se arrumar para assistir aos desfiles de moda era uma excitação que lhe dava frio na barriga.
E naquele dia, passou o dia no trabalho com a mente em seu guarda-roupa. Montava e desmontava combinações, trocava o sapato, a bolsa e pensava nas cores de batom até que o telefone em sua mesa tocasse cortando cruelmente o raciocÃnio fashion, então em andamento.
Quando saiu do banho sentindo frio, sorriu pensando que o segredo no esforço em se arrumar está em não parecer que o fez. Enfiou na cabeça inspiração e, na tomada, o secador.
Vestiu o fuseau estampado com penas de pavão que havia comprado numa galeria, um par de sandálias plataforma douradas e uma camiseta branca. Amarrou os cabelos, passou batom, pendurou nas orelhas um par de argolas e apanhou sua mega bolsa pink.
Chegando ao prédio da Bienal, onde acontecia o SPFW, apresentou seus convites com orgulho e foi entrando a passos de gazela quando, de repente, foi parada por um jovem rapaz de barba, que com uma câmera na mão, se aproximou dizendo: - Oi, posso fazer uma foto sua? É para revista.
Ana se sentiu atraÃda e fez pose depois de reparar no crachá do rapaz, que anotou meticulosamente seu nome, sobrenome e perguntou se por acaso ela seria modelo ou estilista (?).
A menina fez a encabulada pra dizer que não, e ambos seguiram sorrindo em diferentes direções: Ele satisfeito por mais um registro interessante, e ela pela ideal conquista de seu secretÃssimo objetivo.
*Nota: A foto de Ana jamais foi publicada. Ressentida, não mais se satisfaz com sua imagem no espelho embaçado e segue comprando mensalmente a tal revista na expectativa de um dia se ver ali refletida.
Maria Sanz Martins