Da Fauna Extraordinária
Tem coisas que só acontecem na Austrália..
- Por exemplo, tente imaginar esta cena:
Você chega num restaurante bacana, para jantar sob a sombra de uma frondosa árvore, assistido ao sunset mais lindo do mundo. Você pede uma taça de vinho e um pato caramelizado, com ervas e purê de maçã. Ok. Tudo perfeito.
Quando chega o prato, você ajeita no colo o guardanapo, mas quando vai apanhar o garfo, enxerga sobre a mesa o inacreditável: está pousado sobre ela um gigantesco pássaro que calmamente - mesmo sob gritos escandalosos (fiquei apavorada, de verdade), apanha com seu enorme bico o pato caramelizado e voa sem o menor trabalho.
a Kookaburra e o meu pato caramelizado…
chega outra Kookaburra no pedaço..

depois da briga, os restos do pato estraçalhado..
- É, contando agora pode ser engraçado, mas no dia eu fiquei com fome, brava, e tentado entender a audácia daquele pássaro.
E o pior é que é lindo o danado! Ele se chama Kookaburra, ou Laughing Jack (porque seu canto histérico mais parece uma risada), e é nativo da Austrália.
Outro momento clássico: domingo, sol pelando, altas ondas, mar lotado. Helicópteros sobrevoam a praia. De repente uma sirene e um aviso nos auto-falantes – o que aliás por si só, eu já acho engraçado - é que tem um cara que passa o dia inteiro narrando se a corrente ta forte, se tem *bluebottles na água, que é preciso ter cuidado, que isso, que aquilo, e quando ele tá mal humorado diz ainda, e irritado, “vocês acham que sabem nadar, mas não sabem, já disse, não nadem fora da marca das placas, tsc.” –
Pois bem, mas naquele dia o assunto era sério e o aviso no auto-falante era mesmo um shark-alarm. Aquele foi o primeiro que eu presenciei na praia. Achei que seria como nos filmes, correria, agito e surfistas remando desesperados para fora d’água. Mas para minha surpresa, não mudou nada. Os surfistas continuaram surfando tranquilamente, o cara o auto-falante berrando irritado e pronto.
- Eu voltei, absolutamente seca, para casa me perguntando: quem não tem medo de tubarão vai ter medo de que então?!
*Ah, sim bluebottles são uma espécie de jellyfish, ou água viva, muito comum por aqui. São milhares espalhadas pela água e às vezes, trazidas pelas ondas, também na areia da praia. Pessoalmente, já me queimei algumas vezes, tanto na areia, quanto na água, e posso dizer que arde muito, coça e me deixa irritada.
Outro capitulo da vida selvagem é a quantidade de moscas, aranhas e baratas. Sim, elas estão por toda parte. Não é uma questão de limpeza, asseio ou cuidado – é simplesmente um traço dessa natureza intocável.
Quer mais? Se o bicho não é venenoso, o australiano nativo espanta – não mata.
Hum…Já imaginou você fazendo shu-shu, espantando com a vassoura uma barata?
Ah sim, e tem as iguanas! Dia desses, na piscina de Shelly Beach – ah, isso é demais: você sabia que aqui, toda praia tem sua própria piscina? Verdade. Algumas são enormes, com raias para nadar e tudo mais, outras são pequenas, ideais para crianças, mas todas lindas e cristalinas. Elas se renovam com a água do mar, que entra e sai, com as marés e ondas, trazendo água nova todos os dias. –
Mas, enfim, estava lá na piscina, com Luciana, minha amiga, quando vi no alto uma iguana gigante e apontei assustada – mas, aquilo não era na-da – atrás de mim, tinha uma outra enorme, de guelra aberta e cabeça esticada. Nem preciso dizer que dei um grito terrível, e fiz os nativos, que ficam muito bem tranqüilos com aquilo, darem boas risadas.
Enfim, eu que muito diferente do meu irmão Rodrigo, que a-ma os bichos e cria uma iguana gi-gante em casa, devo confessar que sou mesmo medrosa, mas sinceramente, estou começando a simpatizar com a bicharada!
*Sim, sim, eu sei, ando sumida, em débito com este meu amor-noProvadoR.
(Mas, como se sabe, nunca é tarde para matar a saudade..).
Maria Sanz Martins
**Quer mais uma?
Que tal: Então ontem eu abro o jornal e leio “Adolescente se salva dando um peteleco no polvo assassino” (Einh!?)
O garoto estava entrando no mar, com a água ainda nas canelas, quando sentiu uma coisa grudar em sua perna, e deu-lhe um peteleco. A ‘coisa’ era nada menos que um blue-ringed octupus - uma criatura famosa por ser assassina, e cujo veneno mortífero, só aqui na Austrália, já matou quatro pessoas.
- num tô dizendo, extraordinária, e selvagem!