Este blog foi criado para tirar dos cabides pensamentos que devem ser experimentados. Não tenha receio de entrar neste ProvadoR que se propõe a ser amplo e livre de preconceitos. Entre. Prove. E fique à vontade para Levar o que quiser.
Arquivo de Junho, 2009
28 de Junho de 2009 - 10:47
Essa menina
Me chamo Eduardo.
Todos os dias eu espero ela passar por aqui.
Eu espero sentado.
Quando ela anda, mexe os braços ao invés dos quadris.
Amarra os cabelos sem usar elástico.
Não usa perfume importado, mas tem cheiro de flor e um gosto raro.
É azeda e doce, dentro do mesmo momento. Do jeitinho que era aquele chiclete de goma rosado que a gente mascava, um atrás do outro no cinema e que, muito infelizmente, não está mais à venda.
Ah, ela é, sobretudo, um delicioso trago.
É sempre, muito, tudo e misturado.
Ela é o tumulto do show de rock, o calor da areia da praia, e o suor no pé do cabelo que molha os dedos da mão que passa, no meio do beijo, no meio da praça, na volta final do bloco de carnaval.
Ela ocupa espaço.
Quando dança, roda a saia, bate palma e canta alto.
Oferece sorrisos e a mão, mas pra quem sabe pedir, ela também dá o braço.
Mais tarde, sutilmente, vai tirar os sapatos e se você, por acaso, ainda estiver calçado, vai ouvi-la pedir que deixe os seus também de lado.
Fala muito, e para todo lado, e pode ser desbocada, se necessário. Não que lhe falte elegância ou respeito, mas é que ela acredita no fato de que a força do que se pensa também se frui através dos lábios.
E sempre foi assim: é intensa de nascença.
E toma cerveja, whisky, caipirinha. E faz bagunça. E ri à toa. E é atrevida.
Muda várias vezes ao dia. De idéia, de humor e de roupa.
Aprecia cada pequena coisa de que é feita a vida. Valoriza cada palavra que couber numa alegria, ou numa ferida. Mas, como também a lua varia, há dias em que ela fica estupidamente introspectiva.
ela é mesmo assim…
Quanto a mim, que não sou bonito nem feio, nem covarde nem corajoso, sei dizer que espero. Como quem se prepara para conhecer, no mesmo momento, o céu e o inferno. É que se um dia a vida, enfim, achar por bem nos fazer namorados, então estarei condenado.
- Jurado pra morrer da dor de saber que só minha (e para sempre) ela jamais vai ser.
É como disse, essa é uma menina de gosto raro. É azeda e doce dentro da mesma mordida, complexa em cada pedaço. E tanto engorda quanto mata sujeitos como eu, irremediavelmente apaixonados.
Então,
aí o dono da empresa, que tinha uma perna de pau, disse quando foi entrevistar o jovem (e cabeludo) Frank Zappa: “Com esse cabelo comprido, de onde eu estou sentado, você poderia ser uma mulher”.
E Zappa respondeu: “De onde eu estou sentado você poderia ser uma mesa”.
* (ah-há - adoro essa história!)
- Por que tem coisa que não dá pra ouvir calado. Por que o medo da rejeição talvez seja a pior das assombrações. E por que não tem bicho papão que se compare a um alto e sonoro “não“. (Tanto é que, até os dias de hoje, inúmeros armários estão lotados de gente que vive aterrorizada. Morta de medo da rejeição, do preconceito e da discriminação).
* Eu não sei se Frank Zappa, o músico, teve qualquer coisa a ver com o movimento de Harvey Milk, mas sei que ambos detinham a coragem de dizer a verdade e, sobretudo, de se recusar a viver pela metade.
“Milk” é uma história real e um filme extraordinário.
É também uma biografia, um romance e uma aula de história.
Harvey Milk foi ativista, político e pioneiro na luta pelos direitos homossexuais nos Estados Unidos.
Magnificamente interpretado por Sean Penn, que foi premiado com o Oscar de melhor ator neste ano; e dirigido por Gus Van Sant, “Milk” foi eleito o melhor filme de 2008 pelo Círculo de Críticos de Cinema de Nova York.