Famintas

“Sentia necessidade de poder tirar das coisas uma espécie de proveito próprio, e repelir como inútil tudo que não contribuísse para a alegria imediata do coração, porque tinha um temperamento mais sentimental que artístico, procurando emoções e não paisagens”.
Acho lindo esse trechinho da descrição de Flaubert sobre a personalidade ainda jovial de Madame Bovary. Na verdade, aprecio, sobretudo porque me identifico. Também sou assim, de tipo que procura emoções em tudo - inclusive nos livros. Ah, tiro proveito mesmo! Do sol morno de manhã cedo; da música no rádio; do cheiro do café preto; do molhado da fruta, do abraço e do beijo.
Venero tudo que me traz alegria! Quanto ao que me deixa triste, ou é inútil às cordas do meu coração, repudio. Como Ema, sou movida pelo coração, procuro menos a paisagem e mais a emoção.
Talvez isso explique porque meus romances preferidos têm sempre a ver comigo. Não adianta ter beletrística, ser clássica ou famosíssima. Pra mim, literatura boa é aquela que tanto engorda quanto mata a pessoa. Ora, se não me roçarem na pele os personagens; se não me fizerem vestir-lhes os sapatos e os trajes; se eu não sentir a vaga certeza de que aquelas idéias me foram roubadas, deixo o livro de lado.
É como disse, preciso ser tomada, porque, na verdade, estou sempre em busca disso – (de sentir por dentro um reboliço).
Me espremo como posso, me encaixo. Deixo cair a seta, depois pinto um alvo em torno dela. Me encontro nas letras das músicas mais absurdas. Nos romances, nos filmes, nos contos, quadros e peças de teatro. Experimento sem pudor o esplendor dos céus poéticos e das paixões maravilhosas, dessas enormes, “de plumagem cor de rosa“.
Tenho o coração inquieto. Talvez seja afinal uma caçadora de emoção, como aqueles rapazes do filme de ação. Desejo secretamente uma vida de lua de mel, num país de nome aberto, onde o solo perfumado seja fértil para a felicidade. Ah, e também no trabalho, não suporto o marasmo, por isso talvez use palavras e imagens para distorcer como posso a calmaria das verdades.
Tsc, porque na vida real, vira e mexe me sinto deslocada. Como quando encontro por acaso a alegria, e preciso me controlar para não correr, atropelar, pular em cima. Claro, ser equilibrada é mais conveniente às pessoas da minha idade. Mas para mim é dificílimo sustentar o ar de enfado, quando por dentro estou sentindo alegria aos espasmos.
Tipo ontem, quando cheguei à exposição de arte e me serviram um champanhe gelado. Fiquei deslumbrada com as telas nas paredes e feliz com aquela simples, mas borbulhante, frialdade - deu vontade de rir, esticar os braços preguiçosamente para o alto, depois dar um abraço em quem estivesse do meu lado. Mas fazer a louca ali, não era o caso.
Também quando recebo um elogio sobre algum texto de domingo, sinto vontade de pular no pescoço do outro, fazer amizade, dar gargalhada, mas me comporto e digo sorrindo, com carinho, “muito obrigada”. Tsc, se me controlando já deixo muita gente assustada, imagine se eu relaxasse e agisse como costumo estar quase sempre – assim, emocionada.
Gulosa, sonhadora, desastrada, exagerada, parto para cima da vida como a menina que não sabe esperar a hora do ‘parabéns’, e vê na mesa de docinhos um bom motivo para acreditar que uma alegria (ou um brigadeiro) fora de hora, não faz mal a ninguém.
Sim, já não sou mais menina. Mas aos quase trinta, sinto ainda um alvoroço que vem não sei de onde, e como Ema na adolescência, ou Adélia Prado aos quarenta – sigo dizendo:
- Não quero a faca nem o queijo. Quero a fome.
Maria Sanz Martins
*NOta: esta crônica foi publicada domingo passado na Revista.AG do Jornal A Gazeta de Vitória, ES.