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Arquivo de Setembro, 2010

22 de Setembro de 2010 - 17:06

Aventuras Naturais - de João Ubaldo Ribeiro


*A-doro essa crônica do João Ubaldo.
- Adoro, especialmente, porque penso (com carinho) nas amigas vegan e nas coisas estranhas que aprendi a comer por causa dessas companhias..

Por isso transcrevi este conto do livro “Contos e Crônicas Para Ler na Escola” - (tsc, tirei só o finalzinho em que João Ubaldo fala da Chica e dos grilos - mas, para os curiosos, tá lá no livro).

Então, sem mais delongas,
Para os saudáveis de carteirinha,
Um texto genial! (que não deixa de ser uma piadinha).

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Aventuras Naturais

Uma vez o cineasta Geraldo Sarno, que é muito natural embora não pareça, me levou para almoçar num restaurante natural e saí de lá deprimido, levei dois dias para me recuperar. Quanto a ele, garantiu-me que adorava aquilo tudo, apesar de comer com o mesmo ar funéreo dos demais presentes. Pior do que essa experiência acabrunhante, só a que tive num restaurante macrobiótico em Salvador, ao qual concordei que me levassem num momento de insensatez que me deixou abaladíssimo - aqueles matigadores obstinados, aquela aura de expiação de pecados através de penitências alimentares, aquela atmosfera pálida e astênica.

Desconfiado, diria mesmo que intimidado, perguntei se não havia qualquer coisinha para beber e responderam que havia, claro que havia. Maravilhoso, que podia ser, então?
Dependia da minha preferência. Ah, sim, neste caso, que sugeriam? Com revoltante cinismo, o falso amigo que me levou a esse lugar desfiou um rosário horripilante de possibilidades, a começar por suco de espinafre (que nunca vi, mas considero imoral por definição) e terminando por suco de beldroega, que não sei o que é mas tampouco soa como algo decente.

Perguntei se não havia água, então, uma aguinha mineral.
Mineral não, responderam com desdém, temos água descansada.

- Água descansada? Descansada?
- Sim, água descansada.
- E essa água descansada é diferente da água comum? Quer dizer que normalmente bebo água cansada? Isso é mau?
- De certa maneira, você bebe água cansada, sim, pode-se dizer isso. Água misturada com aditivos nocivos, talvez poluída, esterelizada através de meios violentos e antinaturais como a filtragem e a fervura.
- A daqui não é filtrada nem fervida?
- Claro que não. É água natural, de uma fonte límpida que deixamos decantando em vasos de cerâmica especial. Descansando, portanto.
- Fantástica água. Será que posso beber um copo d’água geladinha?
- Gelainha não temos.
- Por quê? Gelar cansa a água?
- Não é natural beber água gelada, é outra violência que se comete contra o organismo. Além disso o senho não devia beber água às refeições, não é bom, talvez um chá, temos chás excelentes.
- De beldroega?
- Se o senhor quiser. Mas temos de tuia, de…
- Não, não, esqueça, tudo bem, eu espero a comida.

Não sei por que resolvi esperar, devia ter fugido antes, inclusive porque, de outra ponta da sala, com um espectro ossudo, aparece um outro amigo meu, que por sinal não reconheci na mesma hora. Malicento, de uma cor parda indefinida, gestos fluidos, voz aflautada, cumprimentou-me festivamente. Que alegria eu lhe dava, aparecendo ali, vendo finalmente o caminho da saúde, da felicidade e da paz de espírito.

- Nunca tive tanta saúde - disse, com um sorriso de múmia. - Você não está me achando bem?
- Hein? Sim, muito bem, está muito bem mesmo.
- Pois é - disse ele, os olhos muito protuberantes no rosto escaveirado. - Sinto-me uns 10 a 15 anos mais moço.

“Embora pareça uns 40 mais velho”, pensei eu, mas não disse, até porque estava chegando a comida. Ao contrário do que acontece quando a comida chega em circunstâncias normais, ninguém esfregou as mãos, lambeu os beiços, sorriu ou lançou um olhar satisfeito sobre os pratos. Ao contrário, criou-se um clima contido e grave, piorado no meu caso pela dor nas costas que me dá em sentar em almofadas no chão, o que também me deixa sem saber o que fazer com as pernas. Mas, de fato, a comida não merecia outro tipo de recepção que não aquele velório.

- Que é isto aqui? - perguntei a um dos amigos, apontando uma massa de cor repelente e consistência suspeita.
- Isto é arroz, arroz integral. Receita da casa, os donos são gênios culinários.
- Com certeza, conseguem vender esse negócio e o pessoal ainda paga e agradece.
- Hein?
- Nada, não. Arroz hein? Quem diria, assim à primeira vista eu pensei que era papa de alpiste com goma arábica.
- Ha-ha, mas é arroz. É uma delícia, experimente.
- Está certo. Acontecendo alguma coisa, avise à família.
- Hein, que tal? Hein? Não! Não!
- Não o quê? O que foi? Estou pálido? Estou roxo?
- Não é isso, você não mastigou.
- Mastiguei, sim. Não havia muito o que mastigar, mas mastiguei.
- Nada disso, você tem que mastigar pelo menos cinquenta vezes.
- Cinquenta vezes? É por isso que ninguém fala aqui, todo mundo contando as mastigadas?
- Não é preciso que sejam rigorosamente cinquenta mastigadas. Mas essa é a média para que você consiga liquidificar a comida na boca.
- Se é assim, então por que não passam logo tudo no liquidificador?
- Não, tem que ser feito na boca. Deve-se mastigar até a água.
- Cinquenta vezes cada gole?
- Mais ou menos.

Na saída, com os maxilares destroncados e a sensação de que tinha comido vento moído, refugiei-me imediatamente num boteco da esquina, comi um sanduiche de pernil e jurei romper relações com o primeiro que me levasse à macrobiótica ou à naturalidade ou a qualquer coisa correlata. (…)

por João Ubaldo Ribeiro.



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8 de Setembro de 2010 - 19:42

Here comes the sun


- TchuruTchuru,

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(And I say)
- it`s all right.



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