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Arquivo de Junho, 2011

24 de Junho de 2011 - 9:20

dance, dance, dance


Life during December from Gregarious Peach on Vimeo.



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13 de Junho de 2011 - 10:13

Entre mundos


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Morava numa casa simples, que durante a semana cheirava a pão com manteiga e aos domingos e sábados, churrasco e cerveja. Os pais, funcionários de uma indústria de calçados, eternos namorados, orgulhosos da família, além de amor, sempre deram confiança de gente grande à filha.

Sexta-feira à noite, ela repetia sempre a mesma rotina: ligar o som do quarto, dar um par de telefonemas, abrir o armário e deixar os olhos vagarem pelos cabides e pares de sapatos. Ligar o chuveiro, prender os cabelos e se demorar num banho cantado. Se enrolar na toalha e esfregar as mãos no espelho, criando um círculo emoldurado - um cativeiro para venerar suas possibilidades… Era noite de balada.

Aos dezenove, não era feia.
Também não chegava a ser o contrário, mas guardava em si qualquer coisa curiosa, apaixonada. E emanava uma autoconfiança opulenta, vasta. Sua presença, de beleza incerta, alastrava dúvida pelos ares por onde passava. Aplicava com maestria o princípio da decisão à cada movimento que operava. E oferecia de bandeja, aos famintos olhares, o fiel produto da digestão de sua inspiração.

Se aprontava antes que as amigas porque gastava mais de hora na função de apanhar primeiro um ônibus, depois um taxi para encontrá-las. Morava num bairro afastado. Às sextas, seus pais não falhavam em ir ao bar com os amigos do trabalho. Aí, a casa só para ela. Ela só, depois do espelho, da roupa, seu gosto, suas crenças, suas heranças, seus sonhos, rebeldias, e tudo mais que compunha sua maneira de se vestir para sair (seu modo único de coisas complicadas sem pronunciar uma única palavra).

Deixando a casa, percorria a rua deserta que a levava até o ponto onde aguardava, com impaciência, o ônibus, que viria quase vazio, executar o penúltimo percurso do dia. Quando o coletivo apontava na esquina, ela esticava o braço com autoridade, fazendo o trambolho barulhento se aproximar, subordinado, rangendo os freios, até parar ao seu lado. Subia com seriedade, mas o taco de seus saltos teimavam em ecoar salientes dentro da máquina metálica. De modo que, mesmo cansados, o motorista emburrado e o trocador cabisbaixo jamais resistiam à curiosidade de examiná-la.

Pelo percurso, ía solene, num suplício mudo para não ser incomodada. Não sabia lidar com gracejos e cantadas. Não era rica, mas lhe ofendiam as palavras de elogio barato. Alí, não queria ser bonita, interessante, cheirosa, nada disso. No íntimo, sentia vergonha de estar enfeitada na hora errada. Procurava um banco vazio ou onde houvesse uma senhora sonolenta, esgotada pelas horas de trabalho. E sacolejava majestosamente até a praça central, de onde tomava um taxi para a balada.

No banco de trás do carro, também era soberba. Segurava apertado, enrolados na mão suada, as notas e moedas do dinheiro trocado. Se acaso o taxista fosse desses conversados, respondia feroz um “sim” ou “não”, apanhava da bolsa o celular e fingia fazer uma ligação.
Uma vez no destino final, saltava do automóvel adulta. Pisando forte. Soberana, habituê daquela rua.

Enfim, a boate. De repente tudo era mais leve, mais engraçado. De repente seus cabelos loiros, seus olhos amendoados, sua calça ambiciosa, seu sapato arriscado, sua blusa convicta e seus brincos vulneráveis. De repente, seu rosto corajoso, bem pintado. Seu brilho irrefutável.

Não esquentava lugar na fila, era sempre convidada (amiga da gerente da casa, não pagava entrada). Encostada no bar, bebericava, imponente, uma dose de Campari. Sentia o gosto heróico da inveja que seu poder causava nas meninas-patrícias que com insistência juvenil a olhavam. Dona da situação, dançava com assinatura, caminhava com jazz e bebia como quem lê poesia. A noite era sua.

Na volta pra casa, com o dia ameaçando o horizonte, o último assobio do vento noturno se despedia do silêncio da rua onde ela aguardava um taxista de sua confiança - mas que raramente estava no ponto quando ela precisava. Esperava, sentindo-se protegida pela fealdade do cansaço. Além de olhos borrados, de rebeldia, muitas vezes, descalçava também os sapatos. Havia sempre quem lhe oferecesse uma carona, mas ela, que sentia orgulho do próprio resguardo, agradecia e recusava. Quando, enfim, o motorista a apanhava, vinha no banco de trás bocejando, entregue, se coçando de sono.

Entrava nas pontas dos pés em casa, fechava lentamente a porta do quarto e se despia. De repente era a filha. Olhos de menina, cabelo atrás da orelha, chinelo de dedo. De repente, a velha camisola cor de rosa, dentes escovados e o rosto lavado com sabonete Phebo. Cortinas fechadas, ventilador de teto ligado e o puído urso de pelúcia debaixo do braço.

Manhã de sábado, para ela, era tarde. Churrasco com a família.
- Dezenove para vinte…

Nem tão mulher.
Nem só menina.

Maria Sanz Martins



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