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Arquivo de Setembro, 2011

27 de Setembro de 2011 - 0:58

Poesia imagética


A árvore da vida

Um filme grande
e um grande filme.
Orgânico, poético, duro
Lindo.

Pra ser visto no cinema
mas, note:
- não é só entretenimento.

para os sensíveis,
recomendo.

maria



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26 de Setembro de 2011 - 9:09

Escrevo


escrevo.jpg

Sem objetivo. Sem hora, sem pressa, nem demora. Escrevo no tempo presente, no que virá e também no que sobra. Escrevo sem proveito, sem capricho, nem “ortografismos”. Aliás, sendo mais realista, muitas vezes, não escrevo. Rabisco.

Precioso é colocar para fora, tirar do peito. Tsc, ser ou não ser lido, receber ou não por isso, deixar as palavras presas na gaveta ou estampar numa camiseta, dá no mesmo (e pode ser preciosismo).

Escrevo como um caçador de borboletas desprevenido. Sempre em busca do o último devaneio brilhante que insiste em ser fugitivo… Aquele que lampeja para se esconder em seguida, me deixando na esperança pueril de que ele reapareça uma dia.

Com a insistência aprendi que a arte está em caçando borboletas, capturar vaga-lumes; rabiscando à esmo, tropeçar na raiz do desassossego; ignorando as regras, encontrar possibilidades; e, mentindo descaradamente, acreditar em mim mesma.

Com esforço criei musculatura para, de vez em sempre, levantar a âncora que me prende à obrigação de ser inteligente, genial ou irreverente. E aprendi, finalmente, a valorizar a possibilidade de não ter correntes.

Agora… Coisa diferente é escrever tendo um porquê. Digo, escrever, especialmente, para se oferecer (não duvide, é preciso preparo para se deixar ser devorado). Porque nunca foi, nem nunca será fácil se entregar de bandeja numa carta de confissão, numa redação escolar, numa petição ou num texto para o jornal do Estado. Ao contrário, no lugar de borboletas fugitivas, as ideias precisam ser coerentes e definidas, como um cão-guia.

Não cabe apenas o rabisco, não cabe o tropeço, não cabe o simplório, nem muito menos o prolixo. Também não é o caso de confiar só na inspiração - verbos, adjetivos, preposições e sujeitos que o digam.

E o pior, neste tipo de escrita, há sempre um prazo à espreita, escondido atrás da porta, debaixo da mesa.

Agora mesmo, depois de horas fechada na biblioteca, com os dedos no teclado e olhos na tela, sinto a angústia da pressa. Respiro. Olho à minha volta e me vejo cercada por outras ideias. Ameaçada por histórias e pensamentos alheios, que não falham em me partir ao meio com suas capas magníficas, de títulos perfeitos.

Do alto da estante ou espalhados pelos cantos, gênios da literatura testemunham minha travessia do purgatório ao céu da crônica pronta.

O caminho ganha forma na medida em que me arrisco na beira do penhasco entre o saber e o desconhecido (como todo mundo, escrevo para compreender o que digo).
Jogo a corda, encontro um gancho, dou nós, faço voltas e ajusto as medidas até que os dois lados do precipício estejam ligados por uma ponte. É ela que possibilita que, de alguma forma metafísica, por alguns instantes, eu e você, nos encontremos.

Quase lá. Precisamente neste instante, estou a trinta palavras de abandonar o purgatório; a vinte e cinco de dar o último nó; e a dezoito de encontrar o paraíso.

Pronto! Pra você, ofereço minha facilidade inata e minha dificuldade adquirida.
Meus rabiscos transformados em obra, ainda que destinada a virar forro de gaiola.

Pela construção da ponte, o que for preciso.
Sou uma operária da emoção.
Escrevo por isso.

Maria Sanz Martins



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19 de Setembro de 2011 - 10:36

REtrato


caras_small2.jpg

Cansei de ouvir que a foto de identidade que acompanha minha crônica na revista não se parece comigo. Que tá ruim, que tá estranha, que tá isso, que tá aquilo…

Pois eu já tentei tirar esse retrato inúmeras vezes e o problema continua o mesmo:
- Sei lá - dizem eles - tá diferente da Maria que eu conheço.
(É, não vou negar: também não me vejo).

Por isso hoje, depois de ter minha foto novamente criticada (dessa vez, por mim mesma), fui catar, nas sobras de ensaios arquivados, algumas coisa melhor para mandar pra revista, e me dei conta de que talvez eu não esteja nas tentativas.
Mas nos tropeços - se é este mesmo o nome das coisas que fazemos sem a preocupação de sermos escancaradamente imperfeitos.

E hoje, como elogio à arte da tentativa, inclusive na escrita, ofereço uma crônica tropeçada (but yet, a minha cara) que foi publicada em 2008 e, agora, segue abaixo:

Bolacha Maria
Ou, Retrato 3×4

Se você tem emprestado seus olhos às minhas palavras, deve ter notado o quanto esta foto aí em cima tem mudado. É que, desde que comecei a escrever por aqui, tenho esbarrado na grande dificuldade que é fazer o tal do “retrato de identidade”.

Seja no passaporte, RG ou qualquer outro documento, a imagem da gente é, além de um registro, um mudo depoimento. “Esse sou eu” – diz o retrato, silenciosamente.

É isso que aos domingos, aqui pregada na página, tento, sorrindo, dizer a você. Eu sou assim: Tenho nariz de batata, boca grande, e olhos puxados. Sou como a Bolacha Maria, que você encontra no supermercado – minha cara é redonda, sou levemente doce e simpática. Também tenho cabelos compridos e bochechas grandes, que escondem meus olhos quando sorrio.

Mas, não adianta, quando tiro esse raio desse retrato, por alguma razão inexplicável, não consigo dizer nada. Nem pareço com a aquela que conheço, ao contrario, sempre acabo me sentindo refém de uma outra – a mesma impostora que, desde os quinze anos de idade, está colada na minha carteira de identidade.

Quem sabe quando eu ficar bem velhinha possa reconhecer essa moça que fui um dia. Mas confesso que hoje, agora, encontrá-la aqui, colorida e estampada, é coisa que me apavora.

O.k., sejamos francos: eu (secretamente) sei, e você deve imaginar que o problema é, na verdade, minha grande vaidade. Ah, essa dama que tanto me aponta, exagera e reclama! Ai, se eu conseguisse dar nela um chega pra lá. Uma surra de vara pra mostrar quem é que manda, e fazê-la calar. Já tentei, mas não tem jeito. A vaidade é um monstro de olhos grandes, cínicos e cheios de preconceitos.

Contudo, ainda que culpemos a vaidade, sabemos que não é só dela a responsabilidade. Ora, existe um sombrio mistério escondido na máquina de tirar retrato, no flash, ou no rosto da gente. Ele também é o responsável pela geral infelicidade de todas as fotos 3×4. (Mistério esse que chega a ser engraçado - vira e mexe damos risada quando mostramos ou vemos nossas fotos de documentos).

Enfim, ficar bem na foto é coisa relativa. Talvez seja como bolo, que quando fica fofo a gente adora; e quando sola, até tenta comer, mas no final, sempre acaba jogando fora.
Não vou dizer que seja problema no forno ou na batedeira, acho que, no meu caso é mesmo falta de mão. Me desculpe, mas eu não levo jeito: Meu bolo sola, e minha foto não sai direito.

Enquanto não aprendo como fazer, ficamos com essa moça aí em cima, que não é bolo fofo nem nada, mas carrega os traços dessa bolacha que vos fala.

Maria Sanz Martins.



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