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Arquivo de Maio, 2013

20 de Maio de 2013 - 11:16

Duas doses diárias


Nota #1: crônica seguinte não é recomendada para os que vivem com o dedo em riste.

Nota #2: a medicina abaixo sugerida pode arrepiar os poros rígidos dos leitores mais conservadores.

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Noite dessas, numa mesa de bar, papeando com uma mulherada animada, que fala sem lei, nem pausa, misturando nostalgia com novidades, caras com bocas e chopes com gargalhadas, me dei conta de uma coisa que é tão simples quanto magnífica, mas que há tempos deixou de ser dita.

Foi de repente, quando a conversa esfriou e o clima ficou grave. Numa hora a gente estava rindo, na outra uma delas apoiou os cotovelos sobre a mesa e disse num tom sombrio que havia tido uma crise de pânico. Fez-se um silêncio sepulcral. Dei uma risada – juro que achei que ela estava brincando. Mas ela me olhou de canto, exclamando: é sério! Foi quando uma outra criatura tomou fôlego e emendou dizendo que isso não era nada, porque há meses estava tomando um medicamento de nome sinistro para controlar a ansiedade. Pois bem, deste pondo em diante, tomo mundo tinha algum comprimido pra confessar. Uma disse que usava um ansiolítico assim assado e importado, recomendado pelo psiquiatra fulano não sei das quantas. “Ah, sei! Também já fui nele”, disse uma terceira com ar de entendida. E eu cada vez mais perdida: “gente, tomo mundo abandonou a análise?”. E alguém respondeu com desdém: “ah, Maria, isso é muito demorado…”

Pois é. Falta tempo até para perceber que o medo é fabricado. Ora, não existe outra explicação para a depressão ter virado assombração até para quem nem sabe direito o que é isso.
Encurralada pela situação de ser a única da conversa que não estava medicada, eu, que morro de medo de remédio, disse que só conheço um jeito de me manter equilibrada: sentir prazer.

“Rá! Assim é fácil” – alguém riu cinicamente. No que eu continuei – Isso mesmo! Prazer cotidiano, em pequenas porções, mas regularmente. Prazer é bom e faz bem, gente!

(Eu sei que você sabe). Mas de duas décadas para cá, ficou decidido e sacramentado em verso cantado: tudo que é bom é imoral, é ilegal ou engorda. Diacho! O planeta anda obcecado com ideia de ser mais rico, mais jovem, mais bem sucedido e mais magro. E para alcançar isso, optamos por viver programados. Convencionamos que é normal passar os dias com os olhos pregados no computador, almoçar shake em salas fechadas, planejar a vida na tela do celular, pagar contas e sorrir – que é pra ampliar a rede de contatos.
O ritmo é insano e tentativa de compensação rola na mesma medida: férias com o itinerario cronometrado; baldes de cerveja no final de semana; cafeína; analgésicos; calmantes; o diabo. Tudo para não perder de vista a nesga que restou daquilo que conhecemos no passado. Felicidade… Sim, um dia todos fomos crianças e perseguimos com naturalidade a satisfação, fugindo como possível do que fosse penoso ou desconfortável – sem a menor crise de culpa, nem sinal da disciplina da auto-negação.

Prazer é coisa simples. Não precisa de prescrição… A não ser no caso de extrema pressão, quando o terapeuta recomenda (por escrito) dez dias de férias… Mas de que serve um mergulho nas delícias da indulgência se estamos cheios de exigências e expectativas? Tsc, isso é sobrecarregar a natureza das coisas.

Enfim, como fiel praticante da arte do hedonismo, humildemente, recomendo pequenas porções diárias de prazer. (Eu nem imagino qual seja a sua). Sei que a minha pode ser um banho cheiroso e demorado, ouvindo música; ou um rolê de patins; um chope gelado; encontrar uma pessoa querida; ouvir rádio; comer caranguejo; ir ao cinema; beijo na boca; um almoço em boa companhia; uma taça de vinho; um livro esperado; brincar na cama com meu filho; entrar no mar; uma boa conversa; um abraço; uma aula de dança; uma festa; um cafezinho e um pedaço de bolo de laranja.

Não importa o ritmo do dia, não importa a pilha de compromissos, não importa a ordem da rotina – em algum momento eu escapo para o pátio da vida e ponho em prática esta minha auto-prescrita medicina.

E desconfio que o medo de abrir mão do corpão, de perder o status social, de ser o melhor no trabalho, de ser o mais eficiente-excelente-super-ocupado, acabe por nos deixar petrificados. Estacionados na absurda situação em que os simples prazeres da vida começam a parecer coisa dos fracos.

Maria Sanz Martins



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