Felicidade

Não tem receita
Aprende tentando, quebrando a cabeça.
E o ponto é incerto
Mas não tem segredo, é só mistério.
É também coisa clandestina, secreta e Ãntima
Não faz morada
Se refugia
Estala
Dá e passa.
Problema é quando gente tenta amarrá-la
E mete na cabeça que tem que ser…
AÃ, não existe pior cilada.
Sim, miss tem-que ser bonita
Palhaço tem-que ter alegria
Artista tem-que viver a fantasia
Apresentador de TV tem-que ser entusiasmado
Mas, feliz de verdade
Ninguém é obrigado.
Mesmo quando se é o dono dos ovos dourados
Quando são perfeitos no cenário, casa, casamento, carreira e carros
Quando tudo parece ser o oposto do errado
E lhe é imposto um largo sorriso estampado
Ter-que ser feliz é um troço complicado.
Ora, se sua maior virtude é ser instável
Ser um imprevisto memorável
Uma surpresa
Um delicioso espasmo
Então, tentar aprisioná-la é preparar para si uma armadilha
Não adianta construir um trono dourado repleto de almofadas
Ela não sabe ficar sentada
Não gosta de gente exigente
Se recusa a ser domada
E não costuma dar o ar da graça quando é obrigada.
É caprichosa e não oferece garantias
Prefere os que por ela arriscam tudo
Desafiam a correnteza, sobem no palco, gritam ‘eu te amo’
E compram passagem só de ida para o mundo.
Mas é também gentil, cotidiana e miúda
E estala no perfume da canja e da casa arrumada
No calor do banho, do café, do beijo e da cama
No abraço do filho suado
No pudim que deu certo
No amigo, no chocolate e no caramelo.
Está em você e em mim
Dia não, dia sim.
Em rebuliço, em repouso
Murmurado, exclamado
Na praia, na sorveteria, no silencio do quarto
Só um pouco ou muito intenso -
Pelo lado de dentro.
Para quem comemora diariamente
O contrário da morte
Felicidade é o sucesso da sorte.
Maria Sanz Martins