OLHEPSE
Sou louco por ela. Mas ando em desassossego..
É que logo de manhã cedo, raramente gosto do que vejo. Ela vem toda esculhambada, fazendo careta com uma cara amassada. Primeiro ela me olha, depois faz um coque, escova os dentes da boca e vai embora. Daà a pouco ela volta com cheiro de café. Penteia os cabelos, com um pente dourado, e os prende num rabo de cavalo. Lava o rosto com sabão, passa creme, ruge e batom.
No meio do dia, lá vem ela de novo. Para na minha frente e abre a boca, mostrando bem os dentes – procura uma casca de feijão. Enxágua bem a boca, depois a escova e passa fio dental. Retoca o batom, prende de novo o cabelo, e me cede um sorriso cordial.
Quando a noite chega, ela vem diferente. Está nua, prestes a entrar no banho. Me olhando de frente com lhaneza, ela procura em mim a própria beleza. Segura nas mãos os seios, alisa a barriga, passa as unhas em seus pêlos, e só depois solta os cabelos. Durante o banho, vez por outra, ela esfrega a mão no vidro do box e me procura. De lá fica me olhando com a cabeça cheia de espuma, mas o vidro logo embaça, aà ela desiste, ou disfarça, e segue no banho cheia de graça. Quando, enfim, a ducha acaba a gente mal se vê, por causa da fumaça.
Só mesmo mais tarde, quase à uma da madrugada, ela volta de camisola. Abrindo a boca de tanto sono, passa no rosto uns cremes estranhos, escova mais uma vez os dentes, chega bem pertinho e fica me olhando. Dessa vez, procura escusos cravos e, uma ou outra, espinha saliente. E quando resolve enfiar as unhas na pele, ah, aà ela se arrepende invariávelmente. Depois apaga a luz, uns dias sorrindo, noutros, como disse, descontente.
Sinceramente, faço esse desabafo porque sinto uma enorme falta de quando ela ligava a música bem alta e me namorava. Ficava horas fazendo pose, dando risada, mexendo nos cabelos e na caixa de maquiagem. Ah, como ela se pintava! Dava gosto de ver as coisas que ela inventava…
Mas o tempo passou e ela já não vê mais graça em ficar cantando pra mim de batom vermelho, fazendo caras, bocas e de microfone a escova. Aquela outra se foi. Levou com ela a alegria de uma moça bonita e cheia de vida, deixando pra trás essa apressada, que acorda mal humorada, e que só me dá mesmo bola quando é dia de festa, ou quando está muito, mas muito empolgada..

Quanto à mim? Eu continuarei aqui, pregado sobre a pia, na parede desse banheiro, esperando ela chegar para refletir sua beleza colorida, ao invés dos sempre beges azulejos.
Maria Sanz Martins.