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23 de Agosto de 2008 - 10:06

Ouro Nosso


Reconhecido e Registrado - Desde o dia 15 de julho de 2008, a Capoeira, uma das maiores expressões culturais afro-brasileiras, foi Reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro e Registrada como Bem Cultural de Natureza Imaterial.

capoeira

Capoeira é bom ai, ai, ai, não sei porque… - Adoro quando essa música é cantada na roda. Primeiro porque é verdade: capoeira não é coisa que se sabe (ela é coisa que se sente); depois porque a letra da música continua dizendo: Ê, ê, ê, e o que é bonito é pra se ver…

Ela é mesmo linda! Deixa admirado quem olha de fora, e completamente arrepiado quem joga do lado de dentro da roda.

Você sabe, na capoeira, a malicia vale muito mais que a força física porque ela um jogo gingado, balançado e brincado. Ela é uma luta dançada, e é uma dança lutada. È defesa e ataque, floreio, berimbau, pandeiro e atabaque.

Bate palma pra capoeira! Ela é riqueza. Ouro herdado das raízes negras, que por aqui chegaram escravizadas e plantaram no solo (e no sangue da gente) a semente do ritmo, da malícia e da força da resistência.

Inspire-se! Tire a camisa e os sapatos. Agache nos pés do berimbau. Peça a benção e entre na roda. Aprenda primeiro a ginga, depois a esquiva - saiba que, como na vida, se defender pode ser mais importante que atacar. Aprenda também a olhar nos olhos do oponente, eles são as janelas que entregam a gente. Depois deixe-se levar, ouça a música, comece a jogar. Fique certo da queda, mas lembre-se de que, também como na vida, é preciso cair para aprender a levantar.

capu

*As fotos foram feitas pelo meu amigo-fera-fotógrafo-de-primeira, Lucas Aboudib, nas ruínas da Ilha da Fumaça, em Vitória – ES. Os capoeiristas são Julia Gravatá e, meu mestre de capoeira, Elber Freitas. A produção e o styling foram feitos por mim mesma!

Maria Sanz Martins – (capoeirista iniciante, da corda suja e amarela).



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17 de Agosto de 2008 - 19:07

OLHEPSE


Sou louco por ela. Mas ando em desassossego..

É que logo de manhã cedo, raramente gosto do que vejo. Ela vem toda esculhambada, fazendo careta com uma cara amassada. Primeiro ela me olha, depois faz um coque, escova os dentes da boca e vai embora. Daí a pouco ela volta com cheiro de café. Penteia os cabelos, com um pente dourado, e os prende num rabo de cavalo. Lava o rosto com sabão, passa creme, ruge e batom.

No meio do dia, lá vem ela de novo. Para na minha frente e abre a boca, mostrando bem os dentes – procura uma casca de feijão. Enxágua bem a boca, depois a escova e passa fio dental. Retoca o batom, prende de novo o cabelo, e me cede um sorriso cordial.

Quando a noite chega, ela vem diferente. Está nua, prestes a entrar no banho. Me olhando de frente com lhaneza, ela procura em mim a própria beleza. Segura nas mãos os seios, alisa a barriga, passa as unhas em seus pêlos, e só depois solta os cabelos. Durante o banho, vez por outra, ela esfrega a mão no vidro do box e me procura. De lá fica me olhando com a cabeça cheia de espuma, mas o vidro logo embaça, aí ela desiste, ou disfarça, e segue no banho cheia de graça. Quando, enfim, a ducha acaba a gente mal se vê, por causa da fumaça.

Só mesmo mais tarde, quase à uma da madrugada, ela volta de camisola. Abrindo a boca de tanto sono, passa no rosto uns cremes estranhos, escova mais uma vez os dentes, chega bem pertinho e fica me olhando. Dessa vez, procura escusos cravos e, uma ou outra, espinha saliente. E quando resolve enfiar as unhas na pele, ah, aí ela se arrepende invariávelmente. Depois apaga a luz, uns dias sorrindo, noutros, como disse, descontente.

Sinceramente, faço esse desabafo porque sinto uma enorme falta de quando ela ligava a música bem alta e me namorava. Ficava horas fazendo pose, dando risada, mexendo nos cabelos e na caixa de maquiagem. Ah, como ela se pintava! Dava gosto de ver as coisas que ela inventava…

Mas o tempo passou e ela já não vê mais graça em ficar cantando pra mim de batom vermelho, fazendo caras, bocas e de microfone a escova. Aquela outra se foi. Levou com ela a alegria de uma moça bonita e cheia de vida, deixando pra trás essa apressada, que acorda mal humorada, e que só me dá mesmo bola quando é dia de festa, ou quando está muito, mas muito empolgada..

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Quanto à mim? Eu continuarei aqui, pregado sobre a pia, na parede desse banheiro, esperando ela chegar para refletir sua beleza colorida, ao invés dos sempre beges azulejos.

Maria Sanz Martins.



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10 de Agosto de 2008 - 22:36

Strike a Pose


ou, Foto de Revista

Os convidados para assistirem aos desfiles numa semana de moda são basicamente a imprensa especializada, artistas que atraiam mídia e grandes compradores. Mas, quem não está ali a trabalho, quer mais ver o fervo da moda e, mais ainda, ferver!
Ser fotografado e ter a imagem registrada pode ser um sofisticadamente secreto objetivo.
Sim, durante uma temporada de moda, as máquinas fotográficas também funcionam como janelas para o mundo ‘Sensacional’ – e, assim sendo, funcionam também como imãs.

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No banho Ana esfregava a mão molhada no vidro embaçado do Box. Gostava de se ver refletida em perspectiva. Não era exatamente bonita, mas sabia tirar proveito de seus atributos e, mais, aplicava com maestria o truque de exagerar os defeitos assumindo-os com ousadia.

Os exóticos óculos de grau eram enormes e protegiam seus olhos castanhos como uma vitrine. Dos cabelos crespos fazia uma ornamentação. Estavam sempre repuxados para trás e presos num rabo-de-cavalo firme que deixava as pontas eriçadas. Sabia se pintar, acreditava no poder das cores e da simpatia.

Ana fazia o atendimento numa agência publicitária, mas sua paixão era a moda. Toda vez que começava uma temporada seu esforço, durante o expediente, era para conseguir convites de alguns desfiles. Em busca deles, se rebolava telefonando para um e outro apostando no poder de persuasão de seu exótico charme – que, seja dito de passagem, era mesmo infalível.

Se arrumar para assistir aos desfiles de moda era uma excitação que lhe dava frio na barriga.
E naquele dia, passou o dia no trabalho com a mente em seu guarda-roupa. Montava e desmontava combinações, trocava o sapato, a bolsa e pensava nas cores de batom até que o telefone em sua mesa tocasse cortando cruelmente o raciocínio fashion, então em andamento.

Quando saiu do banho sentindo frio, sorriu pensando que o segredo no esforço em se arrumar está em não parecer que o fez. Enfiou na cabeça inspiração e, na tomada, o secador.
Vestiu o fuseau estampado com penas de pavão que havia comprado numa galeria, um par de sandálias plataforma douradas e uma camiseta branca. Amarrou os cabelos, passou batom, pendurou nas orelhas um par de argolas e apanhou sua mega bolsa pink.

Chegando ao prédio da Bienal, onde acontecia o SPFW, apresentou seus convites com orgulho e foi entrando a passos de gazela quando, de repente, foi parada por um jovem rapaz de barba, que com uma câmera na mão, se aproximou dizendo: - Oi, posso fazer uma foto sua? É para revista.

Ana se sentiu atraída e fez pose depois de reparar no crachá do rapaz, que anotou meticulosamente seu nome, sobrenome e perguntou se por acaso ela seria modelo ou estilista (?).
A menina fez a encabulada pra dizer que não, e ambos seguiram sorrindo em diferentes direções: Ele satisfeito por mais um registro interessante, e ela pela ideal conquista de seu secretíssimo objetivo.

*Nota: A foto de Ana jamais foi publicada. Ressentida, não mais se satisfaz com sua imagem no espelho embaçado e segue comprando mensalmente a tal revista na expectativa de um dia se ver ali refletida.

Maria Sanz Martins



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