Doce e Azul

Quando ela chegou à calma estação de trem da pequena cidade de praia, comprou um algodão doce azul, caminhou até o banco de madeira e sentou. Virou a cabeça para o enorme relógio de ponteiros dourados, enquanto enfiava na boca um pedaço de nuvem açucarada. Fechou os olhos para sentir o algodão dissolvendo na língua e quando voltou a abrir, ele já estava ali.
Com as mãos no bolso, de pé na sua frente, ele perguntou sem sorrir:
- Você ía embora sem se despedir de mim?
Ela nada. Lambeu os lábios suavemente, olhou para baixo, depois em seus olhos e falou num tom grave:
- Não sou como você gostaria Arthur. Sou diferente.
- O que você quer dizer? – perguntou ele, franzindo ainda mais a testa.
E ela, levantando-se num movimento gracioso, disse mordiscando os lábios e abaixando o rosto:
- Não é segura sua candidatura ao meu afeto.
- Mas, por quê?
- Porque além de ambígua e indecisa, às vezes, também posso ser destrutiva.
Apanhou a mala do chão, e pensou - (veja, minhas certezas cabem nessa maleta!) - mas não disse. Depois continuou:
- É com carinho que te digo: recolha o que passou. Eu preciso seguir meu caminho.
Ele ficou atônito vendo-a desaparecer depois da porta do trem que apitava e rangia sobre o trilho. Depois sentou-se naquele mesmo banco onde a havia encontrado, respirou fundo, passou a mão pela testa, depois viu ao seu lado um algodão doce azul faltando um pedaço.
Foi arremessado ao passado. Voltou ao inicio do verão, à cama de solteiro do seu quarto precariamente iluminado pela luz de um abajur coberto por um casaco, com Muddy Waters na vitrola e ela sussurrando ao seu lado:
- Eu gosto de algodão e de gente doce. Gosto de brisa e de lugar calmo! Ai, eu gosto de dia quente e abafado quando eu posso mergulhar no mar gelado. (…) Sabia que sou de aquário? Você acredita que eu gosto de gente que nunca vi! E também de história de amor; de catchup picante e de coxinha de catupiri!
Era de uma intensidade contagiante, dessas que nos deixam inexplicavelmente feliz. Porém, dali um instante:
- Já vou. Não, não quero companhia, obrigada. Não, a casa da minha tia é logo ali, e além do mais, eu quero ficar sozinha. Depois a gente se fala. Não, amanhã não. Outro dia você me liga. Não, obrigada, não quero leite queimado. Não quero algodão doce, nem quero ir ao parque.
E assim, ela desaparecia por dois ou três dias. Depois voltava - iluminada, feliz e perfumada. Dava-lhe o braço, de surpresa, no meio da rua e, se sorrindo toda, com bochecha, olhos e boca, dizia animada:
- Vamos agora mesmo para a praia!
Antes mesmo de ter a chance de fechar a cara, ela o fazia sorrir, como num passe de mágica. Mais tarde, desenhando com o dedo na areia branca, ela explicava que nos dias passados não estava para amigos e que no lugar de passear, preferiu pintar e ler um certo livro.
Então, eles voltavam às boas. Mas, não demorava, e sem qualquer explicação, chegava outra noite em ela pedia a tia para dizer a ela que não estava.
Certo dia, antes do fim das férias, ela, também sem qualquer razão, arrumou as malas, deu um beijo estalado na bochecha da tia e disse obrigada. Voltaria naquela mesma tarde para a casa de seus pais na cidade onde morava.
Quando desembarcou na estação movimentada, procurou um carrinho de algodão doce por toda parte - precisava matar o quanto antes aquela vontade azul que ficara no banco pela metade. Mas não encontrou nenhum. Saiu na rua e sentiu o calor do asfalto; olhou para os lados e enxergou o fato de que não existiam parques na cidade, nem praças redondas para os namorados. Nada de praia, nada de brisa, nem de calma. Na calçada, os transeuntes caminhavam agitados. Tomou, de repente, uma trombada de um senhor mal educado; depois sentiu o bafo quente do bonde que escorregava pela rua, lotado.
Deu meia volta com o coração disparado, e pegou o primeiro trem para a pequena cidade de praia. Beijou novamente a tia; desfez a mala; escreveu um pedaço de carta; correu pela rua desvairada e bateu-lhe a porta de casa.
Quando ele abriu, seu rosto de menino tinha a expressão de quem viu o sol brilhando na madrugada. Ela lhe estendeu um papel e ele leu em voz baixa.
“Desarrumei outra vez minhas certezas – (estão todas penduradas). Mas, não menti quando te falei que vivo a vida do poeta – (nem feliz, nem triste – incompleta). Sou assim, você sabe. – (azul e doce, ou esquisita, como dizem). Por isso não peço desculpas, nem faço promessas – (só convites).
- Fica comigo (pra sempre) essa noite somente!”
Deliciosa e destrutiva, aquela menina de açucar e anilina já fazia parte da sua vida.
Maria Sanz Martins